INTRODUÇÃO
O conceito de prudência (discernimento) está diretamente relacionado com a questão das escolhas e tomadas de decisões que são feitas a partir da realidade concreta. A prudência seria uma postura adotada por alguns homens - ditos prudentes - para escolher sempre o melhor para si e assim alcançar o fim último de sua ação: a felicidade. Aristóteles deixa claro em seu livro VI que a felicidade é o fim da ação humana e que esse fim não deve ser questionado. Em outras palavras, não é necessário perguntar para um cidadão se ele deseja ser feliz, pois isso já está dado. O que se deve pensar com calma são os meios que os homens usam para alcançar esse fim e um desses meios, diz Aristóteles, é a prudência ou discernimento. Vejamos então algumas das idéias de Aubenque a respeito da Phrónesis e do homem prudente (Phronimos).
A PRUDÊNCIA (Phrónesis) E O
HOMEM PRUDENTE (Phronimos)
A Phrónesis para Aristóteles é uma virtude e não uma ciência. Isso quer dizer que o homem prudente é aquele que busca discernir o que é melhor para seres humanos por hábito. A prudência não é algo que se adquire como a ciência por instrução ou demonstração. Ela deve ser praticada cotidianamente até o momento que se torne algo natural no cidadão. Aristóteles diz em seu livro VI que a juventude (ainda em fase de formação) não consegue ser prudente pelo fato de que possui pouca experiência na vida política. Segundo Aristóteles: “Uma prova do que foi dito é que, enquanto os jovens se tornam geômetras, ou matemáticos, ou sábios em matérias do mesmo gênero, não parece possível que um jovem seja dotado de discernimento. A razão disto é que este tipo de sabedoria não se relaciona apenas com os universais, mas também com os fatos particulares; estes se tornam mais conhecidos graças à experiência, e os jovens não são experientes, pois é o decurso do tempo que dá experiência.” (ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. 1142 a)
Aristóteles diz que a alma do cidadão possui duas partes: uma irracional e outra racional (Zoon + Politikon). Em relação à parte racional ele diz que pode ser dividida também em duas partes: uma que percebe as coisas que não podem ser diferentes do que são (invariáveis) e outra que decide sobre coisas contingentes (variáveis). Sobre essa última é necessário que o cidadão calcule e opine. É justamente por ser variável que é necessário o discernimento ou Phrónesis. Por lidar com coisas variáveis (o cotidiano) então o discernimento exige tempo, reflexão, cálculo e experiência.
Segundo Aubenque, a Phrónesis “só existe naqueles homens que buscam bens humanos e sabem reconhecer nesses bens o que lhe é vantajoso” (AUBENQUE, 2003: p. 23). A prudência nasce do homem prudente, ou aquele que delibera bem para si mesmo e para a cidade. Em outras palavras, Aristóteles diz que a virtude moral consiste em aplicar aquilo que o homem prudente determina, ou seja, “o prudente, sendo o critério último, é seu próprio critério”. (AUBENQUE, 2003: p. 76-77) A prudência torna-se a prática cotidiana oriunda de homens prudentes. Segundo AUBENQUE, “não é mais o homem de bem que tem os olhos fixos nas idéias, somos nós que fixamos os olhos no homem de bem”. (2003: p. 77)
Pierre Aubenque usa a expressão phronimos para definir o homem prudente. Segundo ele, Aristóteles diz que o phronimos “é um certo tipo de homem diferente, que todos sabemos reconhecer e que servem de modelo. A história, a lenda e a literatura fornecem esses modelos, mesmo sem que ninguém saiba definir Phrónesis” (AUBENQUE, 2003: p. 62). Mesmo que não se consiga dizer o que é a prudência, existem alguns homens prudentes cujas condutas servem de exemplo para outros. Aubenque diz que “para definir então o que é prudência é necessário iniciar com a seguinte frase: ‘a melhor forma de compreender o que é a prudência é considerar quais são os homens que chamamos prudentes’”. (ARISTÓTELES apud AUBENQUE, 2003: p. 63) O homem prudente geralmente inspira nos cidadãos o espírito de zelo, seriedade, faz as pessoas sentirem-se seguras e o mais importante: ele se leva sempre a sério. Também é possível identificá-lo como aquele que busca sempre o que é valoroso, o mais verdadeiro em todas as coisas, como se fosse nisso a regra e a medida. (AUBENQUE, 2003: p. 77; 79) O prudente não age de tal forma apenas no nível político, mas busca aproximar do que é melhor de se escolher para o momento vivido, também na esfera individual, na esfera doméstica e legislativa.
Existe um critério para diferenciar o homem prudente de outro que não seja prudente. Segundo Aubenque o critério é o da saúde, ou seja, o homem prudente é aquele que julga amargo, o amargo e doce, o doce. Já o enfermo precipita sempre em direção ao que lhe é nocivo. (AUBENQUE, 2003: p. 79). A expressão usada em grego para definir esse homem saudável é Spoudaios. Essa expressão grega (Spoudaios) se refere à qualidade física (saúde) do homem grego. Alguns traduziram essa expressão por homem virtuoso, honesto e possuidor das tradições mais nobres de um povo. O autor Dirlmeier, diz Aubenque, refere-se ao Spoudaios como “o representante de tudo o que é nobre (...) a realização mais autêntica do homem grego, oposto a não-humanidade do bárbaro”. (AUBENQUE, 2003: p. 82). A mesma idéia de saúde presente na expressão Spoudaios, ou homem-critério, é trabalhada na obra Ética a Nicômacos de Aristóteles, porém com o nome de Phronimos, ou homem prudente, aquele que possui o reto agir, que é capaz de julgar, que possui uma saúde intelectual para bem escolher e decidir. (AUBENQUE, 2003: p. 84-85).
O homem prudente se mantém saudável através de sua inteligência crítica que o capacita julgar uma ação antes de escolhê-la. Desta forma, não é a prudência que é a reta razão (regra) e sim o prudente (Phronimos). A razão prática está no prudente e não na prudência. Segundo Aubenque, “a prudência é um saber singular (...) supõe não somente qualidades naturais, mas virtudes morais para quem terá como missão governar. A coragem, o pudor e a temperança é a salvaguarda da prudência” (AUBENQUE, 2003: p. 100). O prudente deve ser habilidoso, pois suas escolhas se movem em direção ao contingente, ou seja, no domínio daquilo que pode ser diferente do que é. (AUBENQUE, 2003: p. 109). A questão da escolha será tratada em seguida. Será possível perceber a importância do homem prudente para as tomadas de decisões.
DELIBERAÇÃO, ESCOLHAS E
TOMADAS DE DECISÕES
As escolhas e tomadas de decisões, cabem ao homem que sabe deliberar sobre o que é melhor para ele e os outros. Por essa razão, mesmo estando relacionada com a contingência e o acaso das circunstâncias que a cercam, a escolha e/ou a decisão nunca pode ultrapassar a condição humana, tendo em vista que visa um fim que é a felicidade. Se o fim da escolha é a felicidade é importante observar que ela é uma noção humana, portanto deve ser humanamente realizável. Segundo Aubenque: “A prudência é definida como uma disposição prática acompanhada de regra verdadeira concernente ao que é bom ou mal para o homem (...) Essa definição (...) parte-se do uso comum, constata-se que é chamado Phronimos o homem capaz de deliberação (...) sobre o contingente.” (AUBENQUE, 2003: p. 60-61)
De acordo com a citação é possível observar que é chamado de Phronimos o homem capaz de deliberação. Essa palavra deliberação tem um papel importante para o pensamento Aristotélico. O dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano traz uma definição interessante da palavra deliberação: “Consideração das alternativas possíveis que certa situação oferece à escolha. É o que Aristóteles quer dizer ao falar dos limites da deliberação, excluindo do âmbito dela não só o necessário (que não pode não ser), mas também o fim. Com efeito, Aristóteles observa que o médico não se pergunta se quer ou não curar o doente, o orador não se pergunta se quer ou não persuadir, nem o político se quer ou não instituir boa legislação. Ao contrário, uma vez posto o fim, examina-se como e por qual meio se poderá atingi-lo; sobre esses meios, portanto, versará a deliberação. A deliberação conclui-se e culmina na escolha.” (ABBAGNANO, 2000: p. 238)
Percebe-se que o homem prudente (Phronimos) é aquele que delibera bem, ou seja, aquele que considera, de acordo com cada situação, as alternativas possíveis de serem escolhidas e, dentre essas alternativas, decide um meio, um caminho a ser seguido tendo em vista o que é melhor para seres humanos. A deliberação está ligada à regra da escolha em meio ao que sempre pode variar. A partir dessa possibilidade de variação não existe uma certeza indubitável, como na matemática, de que uma ação bem deliberada trará sempre o sucesso, pois todo ato deliberado, toda escolha, ainda pode sofrer interferência do acaso – do contingente. Segundo Pierre Aubenque, a deliberação ou escolha ou tomada de decisão “é da ordem da opinião, ou seja, de um saber aproximativo (...) Fundada em tal saber, nenhuma deliberação será infalível (...) mesmo a ação melhor deliberada sempre comportará o risco, mesmo infinitesimal, do insucesso”. (AUBENQUE, 2003: p. 184). “A deliberação representa a via humana, ou seja, mediana, aquela de um homem que não é completamente sábio nem inteiramente ignorante, num mundo que não é nem absolutamente racional, nem absolutamente absurdo, o qual, no entanto, convém ordenar usando as mediações claudicantes que ele nos oferece.” (AUBENQUE, 2003: p. 188).
A escolha e a tomada de decisão é algo reservado somente ao homem que lida com a incerteza, o que não quer dizer que não deva existir critério para escolher. O que qualifica uma boa escolha, diz Aubenque, não é a retidão da intenção e, sim, a eficácia dos meios escolhidos para decidir. Segundo Aristóteles, “ninguém escolhe estar saudável, mas caminhar ou repousar em vista da saúde; ninguém escolhe ser feliz, mas fazer negócios ou correr perigos tendo em vista a felicidade”. (ARISTÓTELES apud AUBENQUE, 2003: p. 198).
A boa escolha vem de homens com bons hábitos – ou virtuosos. O homem virtuoso acredita que não é possível escolher o que seremos ou o que faremos de uma vez por todas. A atitude mais prudente seria escolher o que fazer a cada instante, dentro do horizonte do possível. “... a escolha se opõe à vontade, no sentido de queremos o bem, mas escolhermos o melhor, ou seja, não o absolutamente bom, mas o melhor possível. É o que Aristóteles exprime claramente ao dizer que a vontade pode tomar por objeto coisas que se sabe serem impossíveis, enquanto a escolha, guiada pela intenção do melhor, não pode se voltar para o impossível”. (AUBENQUE, 2003: 214).
Existe uma distinção entre vontade e escolha. A vontade direciona o homem para seu fim (que é a felicidade) e a escolha se preocupa com os meios para atingir esse fim. O fim da ação humana já está dado: a felicidade. Já a escolha dos meios para se chegar a esse fim é que demanda racionalidade, caráter e discernimento. As escolhas e as tomadas de decisões estão em função do fim que deve sempre convergir no que é melhor para os homens. Segundo Aubenque, Aristóteles acreditava que “a qualidade da ação é medida não somente pela retidão da intenção (como acreditava Platão), mas também pela conveniência dos meios”. (AUBENQUE, 2003: p. 218).
Aristóteles diz que os meios podem estar bem ou mal adaptados ao fim. Isso lembra Maquiavel dizendo que “os fins justificam os meios”. Mas no caso de Aristóteles a idéia é um pouco diferente. Aubenque esclarece que caso aconteça alguma falha na escolha dos meios adequados para atingir algum fim, isso não significa que a pessoa esteja sendo maquiavélica, mas sim inábil para fazer escolhas. Neste caso, o problema não é moral, mas sim técnico. Por isso é importante retomar a idéia de que as escolhas e as tomadas de decisões não devem ser feitas de uma vez por todas e sim a cada instante devido ao fato de que “a escolha racional, guiada pela vontade do bem, decide o melhor possível a cada passo e deixa o resto ao acaso”. (AUBENQUE, 2003: p. 222)
CONCLUSÃO
Como foi apresentado, as escolhas e tomadas de decisões são meios definidos pelo homem prudente para se alcançar o fim último da ação: a felicidade. A felicidade deve estar no horizonte do possível pelo fato de ser uma noção humana, portanto humanamente realizável. Cabe ao homem prudente discernir o melhor caminho a ser trilhado para se atingir seus fins, tendo sempre como propósito escolher o que há de melhor para seres humanos. É ele que calcula os riscos e os impactos de sua ação, avalia as ferramentas disponíveis e mantém sempre a consciência de que sua postura pode minimizar os impactos do acaso, mas não excluí-los.
Em outras palavras, o homem prudente tenta ao máximo lidar com as questões cotidianas de uma maneira estratégica e racional, o que não garante um controle total sobre a realidade. Como reza o dito popular, imprevistos acontecem. Havendo um imprevisto é necessário rever os meios escolhidos e não necessariamente questionar os fins, pois os fins devem expressar sobremaneira o que há de melhor para seres humanos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. 4. ed. Brasília: Ed. UnB, 2001.
AUBENQUE, Pierre. A prudência em Aristóteles. Tradução: Marisa Lopes. São Paulo: Discurso Editorial, 2003.